domingo, 6 de abril de 2014

Sobre o dia 16 de fevereiro de 2014.






Ná,
Sempre imaginei que teria você, assim, ao alcance da minha mão. Uma vida inteira. Beijar-lhe a testa; olhar seus dedos fininhos e você rir dos meus, tortos; cheirar seu lençol; ver você dormir. Por mais que o tempo tenha passado, eu imaginava que seria assim. Uma vida inteira. Mas só agora percebo, enquanto te escrevo que assim pensam as crianças. Para elas, tudo aquilo que é agradável e prazeroso vem de uma fonte inesgotável, infinita, sempre ao alcance das mãos.  As crianças não tem noção de finitude. Eu cresci, mas minha cabeça ainda parece estar naquele dia em que você me chamou para ouvir uma música no seu walkman. Sabe, naquele dia, eu me senti a pessoa mais importante do mundo, você, uma moça, estava dividindo comigo uma porção do seu mundo adulto e que, dali em diante, passou a me constituir: a música. Depois, foram os livros: Amor nos tempos do Cólera e Cem anos de Solidão. Nunca esqueci. Aliás, você gostava da minha memória e me pedia para repetir canções, poemas, textos. Mas, hoje, minha cabeça se perde em distâncias. E tenho a impressão de que pouco fica. Muito pouco. Ao contrário de você. Ontem, passei em frente a sua escola. E vi a faixa com o seu nome. Foi lindo. Acho que vou contar pra todo mundo aqui ou para onde eu for. Acho que essa é a minha missão agora. Contar que é possível amar sobre todas as coisas. Amar simplesmente. Você veio e nos disse isso.
 Te amo
Carmélia.

Rio, 21 de fevereiro de 2014.

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