Ná,
Sempre imaginei
que teria você, assim, ao alcance da minha mão. Uma vida inteira. Beijar-lhe a
testa; olhar seus dedos fininhos e você rir dos meus, tortos; cheirar seu
lençol; ver você dormir. Por mais que o tempo tenha passado, eu imaginava que
seria assim. Uma vida inteira. Mas só agora percebo, enquanto te escrevo que
assim pensam as crianças. Para elas, tudo aquilo que é agradável e prazeroso
vem de uma fonte inesgotável, infinita, sempre ao alcance das mãos. As crianças não tem noção de finitude. Eu
cresci, mas minha cabeça ainda parece estar naquele dia em que você me chamou
para ouvir uma música no seu walkman. Sabe, naquele dia, eu me senti a pessoa
mais importante do mundo, você, uma moça, estava dividindo comigo uma porção do
seu mundo adulto e que, dali em diante, passou a me constituir: a música.
Depois, foram os livros: Amor nos tempos
do Cólera e Cem anos de Solidão.
Nunca esqueci. Aliás, você gostava da minha memória e me pedia para repetir
canções, poemas, textos. Mas, hoje, minha cabeça se perde em distâncias. E
tenho a impressão de que pouco fica. Muito pouco. Ao contrário de você. Ontem,
passei em frente a sua escola. E vi a faixa com o seu nome. Foi lindo. Acho que
vou contar pra todo mundo aqui ou para onde eu for. Acho que essa é a minha
missão agora. Contar que é possível amar sobre todas as coisas. Amar
simplesmente. Você veio e nos disse isso.
Te amo
Carmélia.
Rio,
21 de fevereiro de 2014.

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