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| Sertão-foto: Felipe Abud |
COPA, SECA e IDH.
Raimundo Aragão
rn_aragao@hotmail.com
O Brasil se mobiliza para realizar a Copa do Mundo de 2014. Trata-se de evento internacional e nossa imagem está em jogo. A seleção poderá até fracassar em campo, mas o Brasil na organização da Copa, jamais. Estádios (arenas, agora) monumentais, viadutos, são construídos. Metrôs e outros grandes projetos na área de mobilidade urbana são rapidamente implementados em 12 importantes capitais. Há um esforço coordenado do poder público nas esferas municipal, estadual e federal, inclusive, com recursos do exterior para realizar essas obras, tidas e aceitas por mim, pela torcida do Guarany de Sobral e pelo papa Francisco que gosta de futebol, como prioritárias. Além disso, estas permanecerão após a festa e os moradores das metrópoles hoje sufocados pelo trânsito serão beneficiados.
Por que isso não ocorre com relação à seca? Alguém tem dúvidas de que o abastecimento de água e comida é prioridade máxima?
Há registros de uma grande estiagem no Ceará entre 1580 e 1583, quando o colonizador nem havia chegado. Daquele ano até 2013, a seca virou literatura nas penas de Rodolfo Teófilo, Domingos Olímpio, Graciliano Ramos. Foi tema de debates calorosos no Congresso, desde os tempos do Império. Virou piada nas palavras do Imperador Pedro II que prometeu “ vender até a última joia da Coroa para salvar os flagelados” e na ação de governo que colocou na década de 1970, alguns babacas num velho DC3 carregado de sal que era jogado nas nuvens para produzir chuva. Que nuvens?
A seca não é, portanto, um fenômeno isolado. Ao contrário, faz parte da nossa rotina, tal qual terremotos no Japão. Lá, todas as estruturas de edificações foram adaptadas. A população é treinada para enfrentar o problema, o que evita mortes e destruição. Israel e Estados Unidos (em algumas regiões) enfrentaram com seriedade as secas e obtiveram bons resultados. É claro que a realidade daqueles países é outra, em se tratando de latitude, clima e solo, mas as modernas tecnologias estão aí para serem utilizadas. Por sinal, a presidenta Dilma acaba de anunciar o aporte de 32,5 bilhões de reais para inovação em tecnologia. Será para elevar a produtividade da soja no interior de São Paulo onde os agricultores enfrentam sério problema: faltam carretas para transportar o produto, em virtude da grandiosidade da safra.
. Milhões de recursos foram gastos através da Sudene, DNOCS, Banco do Nordeste e milhões de brasileiros morreram de fome, sede e doenças relacionadas à miséria. Em pleno ano de 2013, segundo ano de seca terrível, pouca coisa mudou nessa triste história. As pessoas continuam sofrendo com a falta de água potável e vendo, impotentes, seus animais morrerem aos montes. Nas cidades já se nota a escassez de vários produtos agrícolas e os preços dispararem, penalizando sempre os mais pobres.
A providência mais visível no Nordeste é a decretação, de “estado de emergência”, após cada seca instalada.. A palavra “emergência” lembra-nos sempre o espaço dantesco dos hospitais de onde ninguém sai curado, (às vezes sobrevive). A cura vem através de procedimentos em salas de cirurgia, laboratórios, clínicas de reabilitação. No caso das secas, passado o sufoco com a chegada das chuvas, finge-se que o grande mal não retornará e nenhuma providência radical, eficaz, é tomada. O presidente Juscelino conseguiu, em 1958, feijão e arroz (ruins) do exterior e muito jabá do Sul e ninguém passou fome. Em 2013, o milho deixou de vir do Centro-Oeste, onde está sobrando com a supersafra, a tempo de salvar parte dos rebanhos, por que um burocrata do Ministério “esqueceu” de assinar a autorização.
O governo brasileiro investe bilhões no combate à desigualdade social, no que vem conseguindo bons resultados. A incoerência, o erro histórico é deixar a região Nordeste refém do clima, puxando para baixo, os números que refletem os resultados desse investimento.. No país com a maior reserva de água doce do mundo, cidadãos sofrem sem água. No maior produtor de soja e milho, parte dos rebanhos morre de fome. O resultado é que, apesar das conquistas, na aferição do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano de 2013, o Brasil ficou atrás dos nanicos Uruguai e Chile, da falida Argentina e, pasmem: perdeu feio para Venezuela e Cuba, pátrias dos “demônios” Chávez e Fidel.



