| Chávez em comício. Foto: AFP |
A opinião da Globo nós já sabemos. Agora vamos ver por outro ângulo. Afinal, somos um país democrático.
Hugo Chavez, o americano do Sul.
Raimundo Nonato Aragão
Cronista
A morte de Chavez deixa a América do Sul mais pobre de líderes. Ele encarnou o sentimento nacionalista, bolivariano, latente nos nativos resistentes ao invasor europeu que massacrou e aculturou nosso povo a partir do seu desembarque neste continente. Era o único chefe de estado da região a se opor de forma clara à política intervencionista praticada pelo bloco Europa/ Estados Unidos. Não rezava de joelhos nas cartilhas do capitalismo e do neoliberalismo. A alinhado com o governo cubano, estrategicamente não ultrapassava os limites que pudessem deixar a Venezuela isolada dos grandes mercados como ocorreu com Cuba ou na mira dos canhões da OTAN, a exemplo do Afeganistão, Iraque e Síria.
Irrequieto, exibido,falante, carismático, elegeu-se presidente da Venezuela e foi reeleito com amplo apoio popular em mais três pleitos, além de ter seu nome referendado em plebiscito realizado em 2004. Sua política voltada para os mais pobres, faixa onde se enquadra a imensa maioria dos venezuelanos, provocou críticas ferozes dentro e até fora do seu território. Foi insistentemente acusado de truculento, populista e ditador, por disputar sucessivos mandatos.
É natural que os líderes políticos tenham adversários, até inimigos mortais, em seus países ou em seus domínios, no caso das grandes potências. É de se estranhar, porém, a quantidade de brasileiros que execravam Hugo Chavez. A Venezuela é uma nação pobre, sem influência política além das suas fronteiras e uma grande parceira comercial do Brasil, cujo saldo entre exportação e importação nos é inteiramente favorável.
A rejeição será por influência da revista Veja que moveu campanha sistemática contra Chavez, visando provocar a esquerda brasileira? Ou tem origem antropológica ou racista, uma vez que o falecido presidente tinha sangue e cor dos povos primitivos da América, valorizava suas origens e os brasileiros na sua maioria são, ou imaginam ser, étnica e culturalmente herdeiros do colonizador europeu?
O general Augusto Pinochet derrubou em 1973 o governo democrático do Chile em golpe militar no qual morreu o então presidente Salvador Allende. Há registros de que assassinou, prendeu, torturou dezenas de milhares opositores, expulsou milhares estudantes das universidades e desempregou por motivos políticos cerca de 200 mil operários. Manteve o país sob feroz ditadura até 1990.
O general Alfredo Stroessener tornou-se ditador no Paraguai também através de golpe militar e se manteve no poder absoluto durante 35 anos. Deu proteção a criminosos nazistas, entre estes, o carrasco Josef Mengele. Foi um dos pilares da “operação condor” que promoveu seqüestros, assassinatos, torturas em toda a América do Sul. Antes de morrer tranqüilo em Brasília no ano de 2006, respondeu a inúmeros processos por corrupção.
Chile e Paraguai também são nossos vizinhos e não me recordo de a grande imprensa brasileira ou mesmo o cidadão comum fazerem críticas tão ácidas a seus ditadores sanguinários quanto faziam a Chavez que, por sinal, nunca foi acusado de corrupção ou de torturas, assassinatos e outras atrocidades. Afinal, Pinochet era filho de militar de origem francesa e Stroessener era filho de alemão. Comparado com essas feras o “índio” Hugo Chavez era um anjo bom que retornou ao Paraíso.
Embora não conseguindo implantar a igualdade social por ele pretendida, a história não poderá negar que Chavez devolveu a seus irmãos que, por sua morte encharcaram de lágrimas ruas de Caracas, uma dádiva caríssima aos miseráveis, infelizes e desamparados: a esperança. Espero que este sentimento não seja enterrado junto com seus restos mortais.
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