quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Não há silêncio...tão controverso.


Comecei a ver com mais frequência na imprensa brasileira sobre a questão dos reféns das FARC na Colômbia depois do sequestro de Ingrid Betancourt em 23 de fevereiro de 2002. A ex-senadora passou seis anos e meio em cativeiro na selva colombiana com mais outros reféns, entre eles, militares do exército colombiano, três americanos, o também ex-senador Luís Eládio Perez, além de Clara Rojas com quem Ingrid foi raptada.
Manifestantes em Paris, foto de 06/03/2008

Em 2010, Betancourt esteve no Brasil para o lançamento de seu livro Não há silêncio que não termine sobre as memórias desse período. Na época, eu estava fazendo uma disciplina no doutorado exatamente sobre memória e testemunho, e me perguntei várias vezes se o testemunho da ex-senadora não representaria um conjunto maior, o das “vozes do sequestro”. Por motivos diversos, não pude fazer meu meu artigo final com esse tema e conclui a leitura de Não há silêncio... em janeiro deste ano.
Ingrid na FLIP em 2010 Foto: Lia Lubambo
Confesso que encontrei ali muito mais do que eu esperava em termos de qualidade. É um livro bem escrito, literário e bem acabado. E foi justamente isso que me chamou atenção: teria sido feito uso de um ghost-writer? Na busca de informações pela internet descobri que essa dúvida não era só minha, uns afirmavam outros negavam. Foi então que outra coisa me chamou atenção: o nome Ingrid Betancourt provocava reações de um extremo a outro, amor e ódio.

Durante o mês de janeiro pesquisei entrevistas, vídeos, busquei opiniões para tentar entender a defesa e acusação da ex-senadora. Seus companheiros de cativeiro acusaram-na de arrogante e manipuladora. Pelas declarações de Ingrid e também nos de seus companheiros, em entrevistas e em livros, as condições de vida dos prisioneiros era lastimável. Como os encarcerados de uma penitenciária comum, eles se amontoavam em espaços reduzidos. Muitas vezes, andavam e dormiam acorrentados por dias quando tinham de se deslocar na floresta, além de terem um tratamento humilhante e desprezível por parte de seus carcereiros. Uma situação na qual todos os envolvidos tiveram sua humanidade roubada. Por isso, não é surpreendente que as relações no cativeiro fossem tensas e que, mesmo fora dele, continuassem assim.
Última prova de vida dos reféns em 2007 (?)

Depois da libertação, em 2008, Ingrid Betancourt deixou a Colômbia e a vida política. Mas começou um longo período de exposição da sua imagem: declarações desencontradas com a dos ex-companheiros, a polêmica com o ex-marido, a indenização contra o Estado (que para os colombianos é algo completamente incoerente), a reação ruim da fundação que leva seu nome ao saber que ela não ganhou o Nobel da Paz. Essa sucessão de acontecimentos desgastaram Betancourt nacional e internacionalmente, até passar a ser motivo de sátira em programas humorísticos e também em outros veículos da imprensa, como nesta revista francesa: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2010/09/15/satira-em-quadrinhos-mostra-a-ex-refem-das-farc-ingrid-betancourt-como-egoista-e-interesseira.htm.

caricatura de Ingrid por revista francesa
Dos vídeos que assisti na internet vi uma Ingrid Betancourt muito atuante na política de seu país, batendo de frente com as FARC e com a corrupção. Nas imagens da última campanha estava misturada aos populares, panfletando, discursando em bancos de praça. O que mais me impressionou nesses vídeos foi o tom da voz da ex-senadora. Uma voz pausada e certeira. Uma pessoa de carisma invejável. Provavelmente, o que mais depôs contra Ingrid Betancourt foi ter sido Ingrid Betancourt. O que esperavam dela após a libertação?

Reféns  em solo colombiano, 2008.
Pergunto-me, depois de seis anos e meio de cativeiro, seis anos e meio de fraturas como conciliar passado e presente? Quando Ingrid foi libertada havia com ela alguns soldados do exercito colombiano com mais de 10 anos de cativeiro, como é para cada um desses reféns contar a vida a partir do dia 02 de julho de 2008? Como manter a coerência, como entender as mudanças, a vida que passou para os outros na ausência deles? Como entender que cada um não é mais uma imagem congelada num cartaz, nem que a vida vai ser transmitida em rápidos segundos num rádio de ondas curtas?
Difícil.
Ingrid Betancourt em Paris, 2010 Foto: Emmanuel Dunand



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