segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Da cozinha









Há no Brasil, ou pelo menos entre minha gente, a expressão “como se fosse da cozinha” para identificar que alguém é amigo íntimo. Talvez Javier não saiba. Mas desconfio que deixei o status de cliente. Na semana passada por duas vezes. Entrei no restaurante e estava totalmente escuro. Achei que poderia estar presa no tempo como uma louca. Ou que Javier não havia colocado a placa de cerre. Não estava louca. Ele me gritou da mesa ao fundo onde comia com os empregados. No te vajas, Carmelia, no esta cerrado.  É que já eram umas três da tarde, embora ele fechasse às quatro, não havia mais entrado ninguém e estavam comendo. Dois rapazes jovens e uma moça. O cozinheiro, o ajudante de cozinha, garçonete e o dono. Almoçamos juntos. Todos. Dois dias depois, não lembro bem, consegui chegar no horário maior movimentado da casa. Até senti alívio em não ser notada. Se não fosse, Paco, o ajudante, ter colocado no som Por enquanto na voz da Cássia Eller. Do balcão, ele me sinalizava na frente dos outros. Ri. Eu só poderia rir e agradecer. Conclusão: se não “sou da cozinha”, pelo menos a cozinha quer me adotar. 

Montevideo 22/09/2014
Início da primavera

domingo, 14 de setembro de 2014

Only 3 minutes, please...



Este lugar possui o ruído de todos os lugares por onde passei. É um apartamento de um cômodo apenas, nos fundos, na planta baixa, cercado de muros. Ele possui a dimensão particular aos sonhos; não precisa de porta para entrar, estrada para andar, nem escada para subir. Neste lugar tudo existe ao mesmo tempo. Quando cai a noite, escuto meu pai a procurar a comida interdita nos armários. Ouço os passos das freiras pelos corredores a verificar as luzes e o nosso sono.  Aqui, os objetos caem na mesma frequência que os gatos correm pelos cômodos a derrubar os frascos de perfume, os jarros de flores, os livros das estantes. Não creio que sejam essas quatro paredes brancas e solitárias de objetos. Não creio que sejam a posição dos móveis, os poucos que repartem o ambiente. Creio que seja o silêncio que tudo isso é capaz de provocar. Ou o único quadro exposto na parede. Uma telefonista congelada usando um enorme chapéu com plumas a pedir only 3 minutes, please. Mas ela nunca fala.

Montevideo, 13/09/2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A PRIMEIRA CASA


Eugenia, Erika e Arns in Pocitos Hostel.



Fui andar. Esticar as pernas. No caminho atravesso a Av. Sarmiento. De longe, avistei o Hostel, minha tumultuada casa da primeira semana. Talvez nem lembrem mais de mim, as pessoas tem memória curta. Na saída do supermercado, encontro Erika, a colombiana, que logo se pôs me perguntar pelas coisas como se fossem ontem. Ia ao hostel ver Eugenia. E me fui. As pessoas não são como um amontoado de coisas na nossa memória, como para Funes. As pessoas vivem em nossa memória. Hoje, comi salada com atum (que nunca gostei). Por coincidência (ou não) levava morangos, mostarda e alface. Nos juntamos e comemos. Esse é o momento do preparo. O americano Arns ajudou a bater o creme da sobremesa com "fresas". Dessa vez,peguei o celular de todo mundo. Assim, a gente vai mudando nossos olhos de dentro.

CRONICA ACERCA DE UM RESTAURANTE

Carmélia Aragão

Onde se passou a história. 11/09/2014
para Marcos, Helena, Ticiana e Javier.


Faminta. Entrei no restaurante. Encontrei a porta dos fundos semiaberta. Javier estava fumando. Bati palmas. Não escutou.
_Javier, qué haces ahí?
_Yo que te pregunto!!! Cómo entraste?
_Por la puerta...- E pensei: ué, o lógico não é entrar pela porta?
Olhei para trás. Havia caminhando por um restaurante escuro com uma placa enorme na frente que dizia: CERRADO. O mais intrigante é que o señor se pôs nervoso como se tivesse sido pego de cuecas por alguém completamente estranho. Sim, eu era a estranha. Completamente.
-Perdón... Pero, tengo hambre. Tomé solo el desayuno por la mañana...
Javier me olhava incrédulo. O restaurante fechado. Os empregados tinham ido embora. Atirou o cigarro longe. E começou a falar com todos os fonemas que eu tinha aprendido na aula de espanhol da Espanha. Javier era de Aragón, de onde talvez tenham vindo meus antepassados. Bem, as informações que pude extrair foram estas: A cozinha está fechada. Não temos almoço. Não sei o que fazer.
Na verdade, existe uma coisa que tenho aprendido desde o primeiro dia em que pisei em Montevideo: o uso da minha licença. É um tipo de licença que só é concedida a crianças muito pequenas, velhos e estrangeiros. Por exemplo, como andar na rua com roupas cujas cores não combinam, mas ninguém vai recriminar, porque você é estrangeiro e talvez não saiba que está ridículo. Como no dia em que, no Rio, encontrei um amigo argentino, um senhor de mais de 60 anos, muito respeitável ator e diretor de teatro, vestido de terno e com uma “canga de praia” enrolada no pescoço. Não uma bufanda. Não uma echarpe. E mesmo que todo artista seja excêntrico: “canga de praia” se usa na praia. Mas ninguém se importou. Nem eu perguntei. 
O que eu fazia a Javier era exatamente o que eu fazia com a moça da loja de ferragens, e também com a da lavanderia, a da imobiliária, sem esquecer o motorista de ônibus, o recepcionista do hotel, o porteiro do prédio, todo e qualquer transeunte que me atravessasse o caminho. Estava exercendo, até as últimas consequências, minha licença estrangeira. Em nada se parece com o que li. Nem Sartre. Nem Camus. Nem Calvino. Nem Arenas perambulando pelas ruas de Nova York. Nem Kafka. Nem Kristeva. Não é da língua que sinto falta. É da vida que não ocorre. Saio em busca de tropeços, a catar pedaços, diálogos, e a tentar fazer, desesperadamente, desses encontros, ao menos, uma licença poética. Para quem está ali, na minha frente, e que depois retomará ao seu todo. O todo que me falta agora. Ou para mim mesma.
Ao perceber que não sairia de seu restaurante sem um pedaço de alface, Javier me levou até a mesa onde costumo sentar todos os dias, ao lado da enorme janela de vidro que ilumina o salão. No te muevas.Voltou com uma empanada gallega. Fria de geladeira. Hechuga, tomato, aceite, sal, pan, un vaso de água. Depois de me ver devorar tudo, ainda trouxe café y postre.
_ Qué hiciste durante el dia para no comer?
_ Trabajava en mi presentación para el curso que estoy haciendo en la Universid...

Ele riu. Não sei se pela minha agitação de ter passado o dia visivelmente envolvida em pensamentos abstratos ao ponto de esquecer-me de comer. Ou se pelo o espanhol que agora estou transcrevendo e que, naquela situação, também lhe soava desastroso. Imagino que se ria mesmo por lembrar que, um dia, uma pessoa também lhe oferecera um prato de comida durante um súbito ataque de licença estrangeira. Enfim. Cobrou-me menos que o habitual. Abriu a porta, tocou-me o ombro e disse: Hasta mañana!

Montevideo,11/09/2014.

Sobre o dia 20 de agosto: a chegada.







Na madrugada do dia 20, quando cheguei à Montevidéu, o avião não teve permissão de pouso. A viagem em si não é tão solitária, as luzes de outras cidades nos acompanham. Mas com a ordem da não aterrissagem, ficou escuro. Acho que sobrevoávamos o mar em círculos. Ainda houve alguém que perguntasse se entre nós havia algum candidato à presidência...que humor! Nos dois dias que se seguiram, estava Montevidéu assim, ensolarada. É a primeira vez que saio do país.

OBS: não era o mar,era um rio enorme.

domingo, 6 de abril de 2014

Sobre o dia 16 de fevereiro de 2014.






Ná,
Sempre imaginei que teria você, assim, ao alcance da minha mão. Uma vida inteira. Beijar-lhe a testa; olhar seus dedos fininhos e você rir dos meus, tortos; cheirar seu lençol; ver você dormir. Por mais que o tempo tenha passado, eu imaginava que seria assim. Uma vida inteira. Mas só agora percebo, enquanto te escrevo que assim pensam as crianças. Para elas, tudo aquilo que é agradável e prazeroso vem de uma fonte inesgotável, infinita, sempre ao alcance das mãos.  As crianças não tem noção de finitude. Eu cresci, mas minha cabeça ainda parece estar naquele dia em que você me chamou para ouvir uma música no seu walkman. Sabe, naquele dia, eu me senti a pessoa mais importante do mundo, você, uma moça, estava dividindo comigo uma porção do seu mundo adulto e que, dali em diante, passou a me constituir: a música. Depois, foram os livros: Amor nos tempos do Cólera e Cem anos de Solidão. Nunca esqueci. Aliás, você gostava da minha memória e me pedia para repetir canções, poemas, textos. Mas, hoje, minha cabeça se perde em distâncias. E tenho a impressão de que pouco fica. Muito pouco. Ao contrário de você. Ontem, passei em frente a sua escola. E vi a faixa com o seu nome. Foi lindo. Acho que vou contar pra todo mundo aqui ou para onde eu for. Acho que essa é a minha missão agora. Contar que é possível amar sobre todas as coisas. Amar simplesmente. Você veio e nos disse isso.
 Te amo
Carmélia.

Rio, 21 de fevereiro de 2014.

POLÍTICAS PÚBLICAS E LITERATURA


POLÍTICAS PÚBLICAS E LITERATURA
(OU QUESTÕES DE (RE)PRESENTAÇÃO)

Carmélia Maria Aragão[1]

Resumo: A partir do conceito de representação (o ato de assumir o lugar do outro numa acepção política da palavra) e re-presentação (o ato de performance ou encenação da fala) tratado por Spivak (2010) com o objetivo de pensarmos a Literatura como promotora de espaços dialógicos no combate à subalternização. Contextualizaremos a proposta de Spivak com o debate levantado por Martha Nussbaum (1995) sobre a importância da imaginação literária na vida pública, que traz a literatura como ferramenta principal para o desenvolvimento político e social.
Palavras-chaves: Literatura; (re) presentação; subalternidade; espaço dialógico; imaginação.
Resumé: À partir de la notion de représentation (l'acte de prendre la place d'un autre dans le sens politique du terme) et la re-présentation (l'acte de performance ou de la mise en scène de la parole) abordée par Spivak (2010) afin de réfléchir sur la littérature comme élément promoteur d'espaces dialogiques dans la lutte contre la subordination.  On fera une contextualisation de la pensée de Spivak  avec le débat soulevé par Martha Nussbaum (1995) sur l'importance de l'imagination littéraire dans la vie publique, ce qui met en évidence la littérature comme le principal outil de développement politique et social.
Mots-clés: Littérature; (re)présentation; subordination; espace dialogique; imagination



Não foi somente a discussão sobre a postura do intelectual levantada por Spivak no livro (ou artigo) Pode o subalterno falar?(2010)[2], no original, Can the subaltern speak? (1988), que me levou a procurá-la como teórica; a resposta que poderia advir dessa questão, fez-me refletir como pesquisadora. Quem trabalha na área de estudos culturais e pesquisa sobre minorias étnicas ou determinados grupos postos à margem já se fez essa pergunta, como também já questionou seu próprio lugar de fala ao lado dessas pessoas ou na frente da Academia.  Tratarei aqui dessas questões e colocarei minhas dúvidas e propostas. Mas antes, é preciso dizer que: não, o subalterno não pode falar.
A abordagem da subalternidade foi tratada no livro a partir da questão sacrifício das viúvas na Índia, um ritual chamado sati. Spivak descreve duas formas de discurso criadas em torno dessas mulheres sacrificadas. O primeiro é opressão da própria tradição hindu que torna a mulher um objeto do marido. O segundo está na literatura de língua inglesa, com o olhar displicente homogeneizante acerca daqueles que não faziam parte da elite colonizadora. Os nomes das viúvas sacrificadas, muitas vezes, não eram grafados na pira do sacrifício, ou os poucos que foram, perderam-se na violência epistêmica de uma tradução suja, virando um folclore sobre aqueles seres exóticos. Para a autora, esses dois discursos formam uma parede onde se encerra o subalterno, no caso, a viúva indiana que nunca pôde reivindicar seu lugar de fala.
A partir desta ilustração, Spivak alerta para o perigo de se construir o outro e o subalterno apenas como objeto de conhecimento por parte dos intelectuais que almejam meramente falar pelo outro. Ela critica a postura do intelectual do “terceiro mundo” que recorre às matrizes teóricas, no caso, europeia e, ao fazer isso, é “cúmplice[3]” do discurso hegemônico, pois as estruturas de poder e opressão vão sendo apenas reproduzidas, mantendo o subalterno silenciado, sem lhe oferecer uma posição, um espaço onde possa falar, principalmente, no qual possa ser ouvido.
Antes de utilizar o exemplo do sati, Spivak faz uma longa crítica à matriz europeia francesa, especificamente, a Foucault e Deleuze.
“Argumentarei em favor dessa conclusão considerando um texto de dois grandes expoentes dessa crítica: ‘Os intelectuais e o poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze’. [...] ambos os autores ignoram sistematicamente a questão da ideologia e seu próprio envolvimento na história intelectual e econômica.”
(SPIVAK: 2012, 26-27).
A Índia e o Brasil hoje estão juntos na classificação econômica, fazem parte do bloco dos “países emergentes” com grande potencial de consumo: os BRICS. No passado, também fomos colonizados e também sofremos perdas irreparáveis. No entanto, as consequências do colonialismo na Índia ou na China, que são culturas já estabelecidas e têm seus fundamentos baseados em várias hierarquias e tradições, ocorreram de uma forma que leva Spivak, hoje, a traçar uma linha de pensamento sociológico ou filosófico para desenvolver sua abordagem da subalternidade pertencente ao contexto que lhe cabe como hindu. No Brasil, o processo de colonização misturou de tal forma, colonizador e colonizado, a partir do extermínio das populações locais, por exemplo, e, cujas consequências, por muitas razões, não nos levaram a uma abordagem da subalternidade hoje, da mesma forma que Spivak e a crítica pós-colonial[4].
Como falei no início, não foi somente a crítica sobre a postura do intelectual diante do Outro que me chamou no texto de Spivak, foi principalmente a distinção do termo “representação”. A autora nos traz dois sentidos dessa palavra em alemão – Vetretung e Darstellung: o primeiro, se refere ao ato de assumir o lugar do outro numa acepção política da palavra, e o segundo, a uma visão estética que prefigura o ato de performance ou encenação. Na análise de Spivak, há uma relação intrínseca entre o “falar por” e “re-presentar”, pois, em ambos os casos, a representação é um ato de fala em que há a pressuposição de um falante e de um ouvinte. Com isso, Spivak aponta para a tarefa do intelectual pós-colonial que deve ser a de criar espaços por meio dos quais o sujeito subalterno possa falar para que, quando ele o faça, possa ser ouvido.  Para ela, não se pode falar pelo subalterno, mas pode-se trabalhar contra a subalternidade.
Na arte, mais especificamente, na Literatura, os espaços dialógicos, de representação e re-presentação emergem de forma mais clara. A voz dos seres colocados à margem surge impressa em livros, folhetos, vídeos, reivindicando, ou seja, traçando sua identidade, seu modo de ver e viver o mundo ao redor, redescrevendo-se[5]. De imediato, lembro-me de Férrez e do livro Capão do Diabo (2000). De uma forma ou de outra, a Literatura pode colocá-lo em um espaço de diálogo onde ele fala e é ouvido, onde ele representa a voz da periferia de São Paulo e, ao mesmo tempo, coloca-a em cena (re-presentando-a).
No entanto, no dia 08 de outubro, na abertura da Feira do livro de Frankfurt, a maior feira literária do mundo, o escritor brasileiro Luiz Ruffato chocou as autoridades locais e a delegação brasileira presente no evento com um duro discurso sobre as desigualdades do Brasil. Entre tantos exemplos e algumas experiências, a fala de Ruffato, além de ser polemicamente recente, também se direciona ao ponto onde quero chegar para justificar o título deste texto e cujo tema é Literatura e políticas públicas.
Primeiramente, o escritor se coloca como alguém que produz literatura na periferia do mundo, em um país cuja língua não tem grande alcance, e que, ironicamente, escreve para um número, cada vez mais, restrito de leitores dentro de seu próprio território. Ruffato chama atenção para nossa incapacidade de nos colocar no lugar do outro, diz que vivemos o dilema do ser humano que é o de lidar com a dicotomia eu/outro. Uma vez que a afirmação de nossa subjetividade se verifica através do reconhecimento do outro, é a alteridade que nos confere o sentido de existir. Porém o outro é também aquele que pode nos aniquilar. E, mais à frente, no último parágrafo[6], o autor toca no ponto, no qual muitos dos que estão aqui, que escolheram o caminho não tão economicamente rentável das humanidades acredita: no papel transformador da literatura. De origem humilde, o escritor poderia ter o mesmo destino dos que estavam com ele, o de permanecer, mas encontrou na literatura a possibilidade de um espaço dialógico pela sua capacidade de autocriação.
“Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora”.
No entanto, com exemplos citados de Luiz Ruffato ou de Férrez podemos nos perguntar: e se levássemos esse “poder transformador” da Literatura para todos? Em primeiro lugar, não vamos pensar que ao entramos em contato com a literatura todos seremos escritores, poetas ou filósofos e assim, construiríamos um mundo melhor. Em segundo lugar, não podemos acreditar cegamente em um “poder transformador”, nos tornaríamos fundamentalistas. Como se disséssemos, parodiando o maravilhoso Augusto Matraga: “a literatura tem que mudar as pessoas nem que seja a porrete”. Quer dizer, a Literatura passaria a servir a um projeto, a um único objetivo, erro comentido pelos regimes totalitários e cujas consequências são desastrosas.  
O que podemos fazer é uma aposta[7] na qual podemos ganhar ou não. Porque Literatura é arte. E como toda obra de arte, ela é uma experiência estética tanto para quem faz como para quem recebe. E, contraditoriamente, por não ter nenhum objetivo, por “não servir para nada”, que ela rompe a mecânica do cotidiano, criando espaço à contingência, para o poder da autocriação, por meio de algo que pode nos parecer banal: a imaginação.
Leio há algum tempo sobre políticas de desenvolvimento humano. A política de desenvolvimento humano[8], segundo o próprio idealizador, Amartya Sen, foi pensada a fim de propiciar o exercício das liberdades, dando aos indivíduos a possibilidade de escolher a vida que gostaria de levar. Ou seja: uma sociedade que investe em educação, cultura, saúde, segurança, permite ao indivíduo a capacidade de pensar por si e de se empenhar por uma vida boa. E a literatura, onde apostamos nossas fichas, encontra lugar neste paradigma.
A teoria de Sen pensa a cultura de duas formas. A primeira como um setor cultural que agrupa as atividades e produtos derivados dessas atividades artísticas e criativas. Ele ressalta que a criatividade é vista como a principal alternativa para o desenvolvimento humano e social. Sen discorda da ideia dos paradigmas econômicos anteriores que valorizavam a criatividade voltada apenas para a economia e a tecnologia. A segunda forma de pensar a cultura, para ele, está sob a perspectiva socioantropológica de que a cultura não se restringe apenas a produção artística, mas representa também um conjunto de valores que estão presentes em todas as interações sociais. Quer dizer: “Toda atividade humana é a expressão de uma cultura que a atravessa e é esta que nos permite dar sentido e valor às atividades humanas em termos relativos[9]”.
Para Martha Nussbaum[10], filósofa norte-americana e companheira de Sen em sua abordagem das capacidades. Ela acredita que seria necessária uma lista de funcionamentos ou de propriedades essenciais que, juntamente com Sen, transformaram-se na lista das “capacidades humanas básicas” que, resumidamente, são: vida; saúde; integridade física; sentidos, imaginação e pensamento; emoções; razão prática; afiliação; outras espécies; jogo; e controle sobre o seu entorno[11].
Segundo Nussbaum investir nas humanidades é investir em seres humanos, homens e mulheres, capazes de refletir sobre seu papel como cidadão.  Nussbaum aposta na imaginação como a capacidade que devemos desenvolver para criar esses indivíduos. Porque a imaginação[12], como capacidade, move-nos a pensar a partir do lugar do outro, ajuda a sermos um leitor de vidas, compreendendo emoções, angústias, aspirações, desejos do outro em determinadas situações. É dessa forma que podemos tirar a Literatura da esfera privada e levá-la para a esfera pública.
Portanto, ao reconhecer a imaginação como uma capacidade humana básica, deve-se trabalhar para que todos possam usufruir dela, da mesma forma que a saúde é também uma capacidade humana básica e se trabalha na implementação de políticas públicas de acesso a programas de medicina preventiva, por exemplo. No caso da imaginação são as políticas públicas de acesso ao livro, à leitura literária, a cultura, tudo que possa estimulá-la. Porque só assim poderemos ouvir vozes dissonantes como o discurso de Luiz Ruffato e a voz de tantas outras pessoas que conhecemos, que estão ao nosso lado sem tribuna, sem microfone, plateia, mas que se colocam em cena.
 Para acessar: 
http://www.gtpragmatismo.com.br/redescricoes/redescricoes/ano5_01/ano5_01.pdf

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:
CALDER, Gideon. Rorty e a Redescrição. Trad. Luiz Henrique de Araújo Dutra. São Paulo: UNESP, 2006.
CHAVEL, Simone. “L'utilité sociale des humanités”in http://www.laviedesidees.fr/L-utilite-sociale-des-humanites.html, 01/06/2013.
GUARÍN, Sergio. “Reflexiones sobre indicadores de leitura” in texto produzindo a pedido do CELALC em 04/09/2012.
NUSBAUM, Martha, “La imaginación literaria en la vida pública” In ISEGORÍA: Revista de Filosofía Moral y Política  nº 11, 1995, p.42-80.
________. Las fronteras de  la justícia: consideraciones sobre la exclusión.Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a Dádiva. Trad. Antônio Felipe Marques. Edições 70: Lisboa, 2008.
RUFFATO, Luiz in “Discurso de aberto da Feira de Frankfurt”, 08 de outubro de 2013, acessado: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra Regina Goulart de Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa –Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010


[1] Carmélia Aragão faz doutorado na PUC - Rio pelo programa de pós- graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. É também bolsista da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico/FUNCAP. Email: carmelia.aragao@gmail.com

[2] “O artigo ‘Pode o Subalterno falar? ’, foi publicado primeiramente em 1985, no periódico Wedge, com subtítulo “Especulações sobre o sacrifício das viúvas”, recebeu notória repercussão, principalmente após ter sido publicado, em 1998, na coletânea de artigos intitulada Marxism and Interpretation of Culture (...)”. (ALMEIDA, Sandra Regina Goulart de. In SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra Regina Goulart de Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa –Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010; p. 12)
[3] “Diante da possibilidade de o intelectual ser cúmplice na persistente constituição do Outro como a sombra do Eu [Self], uma possibilidade de prática política para o intelectual seria por a economia sobre rasura, para perceber como o fator econômico é tão irredutível quanto reinscrito no texto social.” (SPIVAK: 2012, 59-60).

[4] Paulo Freire já fazia uma abordagem da subalternidade, na década de 70, referindo-se ao “oprimido” ou ao “desenraizado” como aqueles que não possuem nenhuma autoridade semântica.
[5] Redescrição é o termo utilizado por Richard Rorty para questionar os discursos legitimadores sobre a existência de uma forma verdadeira (única) de se conceber (dizer) o mundo.

[6] (RUFFATO, Luiz in “Discurso de aberto da Feira de Frankfurt”, 08 de outubro de 2013), acessado: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm
[7] O termo Aposta  aqui pertence ao contexto utilizado por Marcel Mauss em Ensaio sobre a Dádiva. Para ele sem a aposta, não existiria o dom e, portanto, não haveria sacrifício, gratuidade, generosidade e, muito menos, liberdade.
[8] GUARÍN, Sergio. “Reflexiones sobre indicadores de leitura” in texto produzindo a pedido do CELALC em 04/09/2012.

[9] Idem.
[10] CHAVEL, Simone. “L'utilité sociale des humanités” in http://www.laviedesidees.fr/L-utilite-sociale-des-humanites.html, 01/06/2013.
[11] Tradução minha de NUSSBAUM, Martha. Las fronteras de la justícia: consideraciones sobre la exclusión. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007.
[12] NUSBAUM, Martha, “La imaginación literaria en la vida pública” In ISEGORÍA: Revista de Filosofía Moral y Política  nº 11, 1995, p.42-80.