Há no Brasil, ou pelo menos entre
minha gente, a expressão “como se fosse da cozinha” para identificar que alguém
é amigo íntimo. Talvez Javier não saiba. Mas desconfio que deixei o status de
cliente. Na semana passada por duas vezes. Entrei no restaurante e estava
totalmente escuro. Achei que poderia estar presa no tempo como uma louca. Ou
que Javier não havia colocado a placa de cerre.
Não estava louca. Ele me gritou da mesa ao fundo onde comia com os empregados. No te vajas, Carmelia, no esta cerrado. É que já eram umas três da tarde, embora ele
fechasse às quatro, não havia mais entrado ninguém e estavam comendo. Dois rapazes
jovens e uma moça. O cozinheiro, o ajudante de cozinha, garçonete e o dono.
Almoçamos juntos. Todos. Dois dias depois, não lembro bem, consegui chegar no
horário maior movimentado da casa. Até senti alívio em não ser notada. Se não
fosse, Paco, o ajudante, ter colocado no som Por
enquanto na voz da Cássia Eller. Do balcão, ele me sinalizava na frente dos
outros. Ri. Eu só poderia rir e agradecer. Conclusão: se não “sou
da cozinha”, pelo menos a cozinha quer me adotar.
Montevideo 22/09/2014
Início da primavera

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