segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Da cozinha









Há no Brasil, ou pelo menos entre minha gente, a expressão “como se fosse da cozinha” para identificar que alguém é amigo íntimo. Talvez Javier não saiba. Mas desconfio que deixei o status de cliente. Na semana passada por duas vezes. Entrei no restaurante e estava totalmente escuro. Achei que poderia estar presa no tempo como uma louca. Ou que Javier não havia colocado a placa de cerre. Não estava louca. Ele me gritou da mesa ao fundo onde comia com os empregados. No te vajas, Carmelia, no esta cerrado.  É que já eram umas três da tarde, embora ele fechasse às quatro, não havia mais entrado ninguém e estavam comendo. Dois rapazes jovens e uma moça. O cozinheiro, o ajudante de cozinha, garçonete e o dono. Almoçamos juntos. Todos. Dois dias depois, não lembro bem, consegui chegar no horário maior movimentado da casa. Até senti alívio em não ser notada. Se não fosse, Paco, o ajudante, ter colocado no som Por enquanto na voz da Cássia Eller. Do balcão, ele me sinalizava na frente dos outros. Ri. Eu só poderia rir e agradecer. Conclusão: se não “sou da cozinha”, pelo menos a cozinha quer me adotar. 

Montevideo 22/09/2014
Início da primavera

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