Carmélia Aragão
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| Onde se passou a história. 11/09/2014 |
para Marcos, Helena, Ticiana e Javier.
Faminta. Entrei
no restaurante. Encontrei a porta dos fundos semiaberta. Javier estava fumando.
Bati palmas. Não escutou.
_Javier, qué haces ahí?
_Yo que te pregunto!!! Cómo entraste?
_Por la puerta...- E pensei: ué, o lógico
não é entrar pela porta?
Olhei para trás.
Havia caminhando por um restaurante escuro com uma placa enorme na frente que
dizia: CERRADO. O mais intrigante é que o
señor se pôs nervoso como se tivesse sido pego de cuecas por alguém
completamente estranho. Sim, eu era a estranha. Completamente.
-Perdón... Pero, tengo hambre. Tomé solo el
desayuno por la mañana...
Javier me olhava
incrédulo. O restaurante fechado. Os empregados tinham ido embora. Atirou o
cigarro longe. E começou a falar com todos os fonemas que eu tinha aprendido na
aula de espanhol da Espanha. Javier era de Aragón,
de onde talvez tenham vindo meus antepassados. Bem, as informações que pude
extrair foram estas: A cozinha está
fechada. Não temos almoço. Não sei o que fazer.
Na verdade,
existe uma coisa que tenho aprendido desde o primeiro dia em que pisei em Montevideo: o uso da minha licença. É um tipo de licença que só é
concedida a crianças muito pequenas, velhos e estrangeiros. Por exemplo, como
andar na rua com roupas cujas cores não combinam, mas ninguém vai recriminar,
porque você é estrangeiro e talvez não saiba que está ridículo. Como no dia em
que, no Rio, encontrei um amigo argentino, um senhor de mais de 60 anos, muito
respeitável ator e diretor de teatro, vestido de terno e com uma “canga de
praia” enrolada no pescoço. Não uma
bufanda. Não uma echarpe. E mesmo
que todo artista seja excêntrico: “canga de praia” se usa na praia. Mas ninguém
se importou. Nem eu perguntei.
O que eu fazia a
Javier era exatamente o que eu fazia com a moça da loja de ferragens, e também
com a da lavanderia, a da imobiliária, sem esquecer o motorista de ônibus, o
recepcionista do hotel, o porteiro do prédio, todo e qualquer transeunte que me
atravessasse o caminho. Estava exercendo, até as últimas consequências, minha licença estrangeira. Em nada se parece
com o que li. Nem Sartre. Nem Camus. Nem Calvino. Nem Arenas perambulando pelas
ruas de Nova York. Nem Kafka. Nem Kristeva. Não é da língua que sinto falta. É
da vida que não ocorre. Saio em busca de tropeços, a catar pedaços, diálogos, e
a tentar fazer, desesperadamente, desses encontros, ao menos, uma licença poética. Para quem está ali, na
minha frente, e que depois retomará ao seu todo. O todo que me falta agora. Ou
para mim mesma.
Ao perceber que não
sairia de seu restaurante sem um pedaço de alface, Javier me levou até a mesa
onde costumo sentar todos os dias, ao lado da enorme janela de vidro que
ilumina o salão. No te muevas.Voltou
com uma empanada gallega. Fria de
geladeira. Hechuga, tomato, aceite, sal, pan, un vaso de água. Depois de me ver
devorar tudo, ainda trouxe café y postre.
_ Qué hiciste durante el dia para no comer?
_ Trabajava en mi presentación para el curso
que estoy haciendo en la Universid...
Ele riu. Não sei
se pela minha agitação de ter passado o dia visivelmente envolvida em pensamentos
abstratos ao ponto de esquecer-me de comer. Ou se pelo o espanhol que agora estou
transcrevendo e que, naquela situação, também lhe soava desastroso. Imagino que
se ria mesmo por lembrar que, um dia, uma pessoa também lhe oferecera um prato
de comida durante um súbito ataque de
licença
estrangeira. Enfim. Cobrou-me menos que o habitual. Abriu a porta, tocou-me
o ombro e disse:
Hasta mañana!
Montevideo,11/09/2014.