segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Recuerdos: Otávio e Ângelo

Ângelo e Otávio em Buenos Aires.
Arquivo surrupiado do facebook.
Me perdoem.


Otávio e Ângelo. Conheci-os no hostel. E necessariamente nesta ordem. Era agosto. Noite fria de desesperar. Otávio tocava e cantava ao violão: "Como se fosse a primavera", uma versão dele próprio. E Ângelo, carioca da gema, gostava de músicas nordestinas. Luiz Gonzaga, Lenine, Geraldo Azevedo. Seguiram viagem. Não sei se já chegaram ao Brasil. Hoje, a primavera começou aqui. Lembrei muito de vocês. E cantei.




Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera 
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal

(Pablo Milanés;Nicolás Guillen; Chico Buarque)

Montevideo, 22/09/2014

Da cozinha









Há no Brasil, ou pelo menos entre minha gente, a expressão “como se fosse da cozinha” para identificar que alguém é amigo íntimo. Talvez Javier não saiba. Mas desconfio que deixei o status de cliente. Na semana passada por duas vezes. Entrei no restaurante e estava totalmente escuro. Achei que poderia estar presa no tempo como uma louca. Ou que Javier não havia colocado a placa de cerre. Não estava louca. Ele me gritou da mesa ao fundo onde comia com os empregados. No te vajas, Carmelia, no esta cerrado.  É que já eram umas três da tarde, embora ele fechasse às quatro, não havia mais entrado ninguém e estavam comendo. Dois rapazes jovens e uma moça. O cozinheiro, o ajudante de cozinha, garçonete e o dono. Almoçamos juntos. Todos. Dois dias depois, não lembro bem, consegui chegar no horário maior movimentado da casa. Até senti alívio em não ser notada. Se não fosse, Paco, o ajudante, ter colocado no som Por enquanto na voz da Cássia Eller. Do balcão, ele me sinalizava na frente dos outros. Ri. Eu só poderia rir e agradecer. Conclusão: se não “sou da cozinha”, pelo menos a cozinha quer me adotar. 

Montevideo 22/09/2014
Início da primavera

domingo, 14 de setembro de 2014

Only 3 minutes, please...



Este lugar possui o ruído de todos os lugares por onde passei. É um apartamento de um cômodo apenas, nos fundos, na planta baixa, cercado de muros. Ele possui a dimensão particular aos sonhos; não precisa de porta para entrar, estrada para andar, nem escada para subir. Neste lugar tudo existe ao mesmo tempo. Quando cai a noite, escuto meu pai a procurar a comida interdita nos armários. Ouço os passos das freiras pelos corredores a verificar as luzes e o nosso sono.  Aqui, os objetos caem na mesma frequência que os gatos correm pelos cômodos a derrubar os frascos de perfume, os jarros de flores, os livros das estantes. Não creio que sejam essas quatro paredes brancas e solitárias de objetos. Não creio que sejam a posição dos móveis, os poucos que repartem o ambiente. Creio que seja o silêncio que tudo isso é capaz de provocar. Ou o único quadro exposto na parede. Uma telefonista congelada usando um enorme chapéu com plumas a pedir only 3 minutes, please. Mas ela nunca fala.

Montevideo, 13/09/2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A PRIMEIRA CASA


Eugenia, Erika e Arns in Pocitos Hostel.



Fui andar. Esticar as pernas. No caminho atravesso a Av. Sarmiento. De longe, avistei o Hostel, minha tumultuada casa da primeira semana. Talvez nem lembrem mais de mim, as pessoas tem memória curta. Na saída do supermercado, encontro Erika, a colombiana, que logo se pôs me perguntar pelas coisas como se fossem ontem. Ia ao hostel ver Eugenia. E me fui. As pessoas não são como um amontoado de coisas na nossa memória, como para Funes. As pessoas vivem em nossa memória. Hoje, comi salada com atum (que nunca gostei). Por coincidência (ou não) levava morangos, mostarda e alface. Nos juntamos e comemos. Esse é o momento do preparo. O americano Arns ajudou a bater o creme da sobremesa com "fresas". Dessa vez,peguei o celular de todo mundo. Assim, a gente vai mudando nossos olhos de dentro.

CRONICA ACERCA DE UM RESTAURANTE

Carmélia Aragão

Onde se passou a história. 11/09/2014
para Marcos, Helena, Ticiana e Javier.


Faminta. Entrei no restaurante. Encontrei a porta dos fundos semiaberta. Javier estava fumando. Bati palmas. Não escutou.
_Javier, qué haces ahí?
_Yo que te pregunto!!! Cómo entraste?
_Por la puerta...- E pensei: ué, o lógico não é entrar pela porta?
Olhei para trás. Havia caminhando por um restaurante escuro com uma placa enorme na frente que dizia: CERRADO. O mais intrigante é que o señor se pôs nervoso como se tivesse sido pego de cuecas por alguém completamente estranho. Sim, eu era a estranha. Completamente.
-Perdón... Pero, tengo hambre. Tomé solo el desayuno por la mañana...
Javier me olhava incrédulo. O restaurante fechado. Os empregados tinham ido embora. Atirou o cigarro longe. E começou a falar com todos os fonemas que eu tinha aprendido na aula de espanhol da Espanha. Javier era de Aragón, de onde talvez tenham vindo meus antepassados. Bem, as informações que pude extrair foram estas: A cozinha está fechada. Não temos almoço. Não sei o que fazer.
Na verdade, existe uma coisa que tenho aprendido desde o primeiro dia em que pisei em Montevideo: o uso da minha licença. É um tipo de licença que só é concedida a crianças muito pequenas, velhos e estrangeiros. Por exemplo, como andar na rua com roupas cujas cores não combinam, mas ninguém vai recriminar, porque você é estrangeiro e talvez não saiba que está ridículo. Como no dia em que, no Rio, encontrei um amigo argentino, um senhor de mais de 60 anos, muito respeitável ator e diretor de teatro, vestido de terno e com uma “canga de praia” enrolada no pescoço. Não uma bufanda. Não uma echarpe. E mesmo que todo artista seja excêntrico: “canga de praia” se usa na praia. Mas ninguém se importou. Nem eu perguntei. 
O que eu fazia a Javier era exatamente o que eu fazia com a moça da loja de ferragens, e também com a da lavanderia, a da imobiliária, sem esquecer o motorista de ônibus, o recepcionista do hotel, o porteiro do prédio, todo e qualquer transeunte que me atravessasse o caminho. Estava exercendo, até as últimas consequências, minha licença estrangeira. Em nada se parece com o que li. Nem Sartre. Nem Camus. Nem Calvino. Nem Arenas perambulando pelas ruas de Nova York. Nem Kafka. Nem Kristeva. Não é da língua que sinto falta. É da vida que não ocorre. Saio em busca de tropeços, a catar pedaços, diálogos, e a tentar fazer, desesperadamente, desses encontros, ao menos, uma licença poética. Para quem está ali, na minha frente, e que depois retomará ao seu todo. O todo que me falta agora. Ou para mim mesma.
Ao perceber que não sairia de seu restaurante sem um pedaço de alface, Javier me levou até a mesa onde costumo sentar todos os dias, ao lado da enorme janela de vidro que ilumina o salão. No te muevas.Voltou com uma empanada gallega. Fria de geladeira. Hechuga, tomato, aceite, sal, pan, un vaso de água. Depois de me ver devorar tudo, ainda trouxe café y postre.
_ Qué hiciste durante el dia para no comer?
_ Trabajava en mi presentación para el curso que estoy haciendo en la Universid...

Ele riu. Não sei se pela minha agitação de ter passado o dia visivelmente envolvida em pensamentos abstratos ao ponto de esquecer-me de comer. Ou se pelo o espanhol que agora estou transcrevendo e que, naquela situação, também lhe soava desastroso. Imagino que se ria mesmo por lembrar que, um dia, uma pessoa também lhe oferecera um prato de comida durante um súbito ataque de licença estrangeira. Enfim. Cobrou-me menos que o habitual. Abriu a porta, tocou-me o ombro e disse: Hasta mañana!

Montevideo,11/09/2014.

Sobre o dia 20 de agosto: a chegada.







Na madrugada do dia 20, quando cheguei à Montevidéu, o avião não teve permissão de pouso. A viagem em si não é tão solitária, as luzes de outras cidades nos acompanham. Mas com a ordem da não aterrissagem, ficou escuro. Acho que sobrevoávamos o mar em círculos. Ainda houve alguém que perguntasse se entre nós havia algum candidato à presidência...que humor! Nos dois dias que se seguiram, estava Montevidéu assim, ensolarada. É a primeira vez que saio do país.

OBS: não era o mar,era um rio enorme.

domingo, 6 de abril de 2014

Sobre o dia 16 de fevereiro de 2014.






Ná,
Sempre imaginei que teria você, assim, ao alcance da minha mão. Uma vida inteira. Beijar-lhe a testa; olhar seus dedos fininhos e você rir dos meus, tortos; cheirar seu lençol; ver você dormir. Por mais que o tempo tenha passado, eu imaginava que seria assim. Uma vida inteira. Mas só agora percebo, enquanto te escrevo que assim pensam as crianças. Para elas, tudo aquilo que é agradável e prazeroso vem de uma fonte inesgotável, infinita, sempre ao alcance das mãos.  As crianças não tem noção de finitude. Eu cresci, mas minha cabeça ainda parece estar naquele dia em que você me chamou para ouvir uma música no seu walkman. Sabe, naquele dia, eu me senti a pessoa mais importante do mundo, você, uma moça, estava dividindo comigo uma porção do seu mundo adulto e que, dali em diante, passou a me constituir: a música. Depois, foram os livros: Amor nos tempos do Cólera e Cem anos de Solidão. Nunca esqueci. Aliás, você gostava da minha memória e me pedia para repetir canções, poemas, textos. Mas, hoje, minha cabeça se perde em distâncias. E tenho a impressão de que pouco fica. Muito pouco. Ao contrário de você. Ontem, passei em frente a sua escola. E vi a faixa com o seu nome. Foi lindo. Acho que vou contar pra todo mundo aqui ou para onde eu for. Acho que essa é a minha missão agora. Contar que é possível amar sobre todas as coisas. Amar simplesmente. Você veio e nos disse isso.
 Te amo
Carmélia.

Rio, 21 de fevereiro de 2014.