quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Devaneios de pesquisadora


CHICO BUARQUE , OS JOVENS INFRATORES DA COLONIA BERRO, ANTES QUE O MURO DESABE SOBRE AS INTERTEXTUALIDADES DE CÁLICE POR CRIOLO  E ALGUMAS PALAVRAS PARA MEU AMOR.

Para Marcos e Helena.

 O quanto Chico Buarque representa para nós. É inegável. Mas às vezes, o velho novo Chico me parece muito chato. Me aborrece. Não pelo artista em si, mas pelo séquito que o segue. Chico se tornou artigo de luxo. E para muito poucos. Já faz alguns anos que fui a um show dele, na plateia, no fundão, porque um primo meu – médico – pôde me ajudar a pagar o ingresso. Era só cheiro de uísque e perfume francês. Além da gritaria das socialites histéricas. Não lembro mais o nome da casa de show onde Chico se apresentou – nem sei se existe ainda.  Mas ficava num bairro bem crítico de Fortaleza-CE – de quem sempre recebo péssimas notícias desde que nos separamos em 2009 – Aliás,  não se consegue chegar ao título de 7ª capital mais violenta do mundo, de uma hora pra outra, há que se ter muito empenho do poder público – Mas, voltando ao assunto: o velho novo Chico cantou músicas novas, à época, e algumas canções do Chico jovem. Nada muito relevante.  Por que o que quero falar vem exatamente neste momento no fim do show. Quando deixamos a segurança dos muros do clube. Do lado de fora, não éramos mais que ratinhos brancos observados pelas luzes do feroz gato que era aquele bairro. Estava instaurado o desespero para buscar o carro no estacionamento. Antes que. Confesso que senti muito medo. Ainda hoje tenho. Tanto medo. E muitas vezes, evito sair à rua, de dia, de noite, sozinha. E quando o faço, é sempre correndo. Antes que.


Ponderei muito, quando Helena, minha orientadora daqui, me propôs uma investigação junto à ONG ProCul – os uruguaios se riem muito dessa sigla – mas tamanho foi meu nervosismo e seriedade que  nem me atentei para o escatológico –  e lhe devo ter enviado muitos emails com mil justificativas. Até que ela, finalmente, escreveu: Tú no vas a entrar a la cárcel. Sim, a ONG trabalha com menores em privação de liberdade na Colônia Berro, aqui em Montevidéu. Ela marcou uma entrevista com o Mario Villagrán, um dos fundadores.

Desde que “políticas públicas” passou a fazer parte do meu vocabulário, só tenho me deparado com esse muro grande e cinzento que nos encerra. A todos. Aos que, como eu, querem viver em paz, tranquilos e livres. Aos que por algum motivo, sempre ignorado por nós, tiveram que ser encerrados nele, para o bem de todos.  E durante a pesquisa que  fazia para qualificação, ainda no Rio, no início do ano, dois fatos que me chocaram bastante vieram à tona na grande mídia: o vídeo dos presos decapitados durante uma rebelião na Penitenciária de Pedrinhas-MA; e a foto do jovem negro amarrado ao poste pelos justiceiros da classe média carioca residente no bairro do Flamengo.  Esses dois acontecimentos acenderam nos brasileiros comuns de classe média – estrato social ao qual pertenço e, por isso, acompanho – a antiga discussão: devemos ou não nos preocupar com a barbárie, afinal, a matança ocorreu entre presos, na maioria, pretos e pobres tal qual o jovem que amarraram ao poste.

Uma coisa é você dizer que faz DOUTORADO nas mesas de congressos, nas salas de visita, pros amigos da sua mãe. É você dizer que estuda políticas públicas que envolvem a leitura com ênfase no texto literário.  A outra coisa vem logo em seguida. Todos se olham – inclusive você mesmo – e se perguntam: Mas para quê?

Tenho me deparado teorias brilhantes acerca de políticas públicas. Tenho conhecido, ou pessoalmente ou por meio de textos, pessoas com história de vida inteiramente dedicada ao Outro. Seja no poder público, na Academia, no asfalto, no morro, nas quebradas, no sertão e, o que mais me espanta, é que elas me respondem, sem que eu pergunte, “para quê?”. E a resposta nunca é dita verbal e literalmente, em um idioma qualquer. Mas simplesmente respondem.

Da conversa com Mário, ontem, mesmo sob o jargão de quem trabalha imerso no sistema penal, embora não fazendo parte dele. E me dizia “para quê” cada vez que buscava o ar para entabular a nossa maratona de perguntas. Helena e eu nos olhávamos cúmplices, com eurekas nos olhos, encaixando nossas investigações teóricas as suas palavras pulsantes. Um músico de meia-idade, cansado, muito cansado, mas ainda rindo e se emocionando, ao recontar aquelas histórias de quem vive todo dia, lado a lado,  com os meninos e meninas, encarcerados na Colonia Berro.

No entanto, o que eu consigo responder para mim? Até onde acredito no que digo a mim mesma? Nesse percurso, uma jovem, menor de idade, usuária de crack, sozinha, ou acompanhada, assassinou meu sogro. A pessoa com quem divido minha vida perdeu o pai. Assim. O mais irônico é que foi o Marcos, meu namorado, quem me mostrou o texto sobre a morte do traficante Marcinho VP, em Cabeça de Porco, e me chamou atenção para a forma como o professor Luiz Eduardo Soares, no livro, transformava-o em Márcio Amaro de Oliveira, um homem de trinta e poucos anos, que apesar de ter cometidos crimes horríveis, era uma pessoa que tinha algo a dizer, mas não disse, por não poder transgredir a uma única lei inviolável: não serás outro (para que eu permaneça o que sou).

Sempre ouvi Marcos a falar, com muita poesia, sobre Rorty e a redescrição. Ela é algo como um direito ou uma capacidade que temos de nos recriar a partir da linguagem, a partir da literatura, mudando assim, a forma de vermos o mundo ou o mundo nos vê. É o que faz Luiz Eduardo ao chamar Márcio para o diálogo. Para que ele e nós tivéssemos a chance de redescrever aquela situação de ódio. Mas não conversamos sobre isso. Não sobre redescrição. Mas sobre essa dor, sobre a perda de seu pai, sobre essa morte tão inexplicável como a dor que sente agora. E que nunca vou saber como é. E me ponho ao seu lado, como sempre, mas um pouco afastada, para não doer. Por cuidado e por medo. E, por mais que eu tente, não consigo enxergar essa jovem sob um horizonte redescrito.

Por isso, e outras tantas coisas que não consigo escrever aqui, que não é fácil ouvir todos os dias esse resposta que continuo a buscar. Não porque a ignoro. De forma alguma. Foi na conversa com Mario que me lembrei de todas essas coisas  presente ou passado – Inclusive, foi ele quem me fez lembrar o Chico hoje, o Chico jovem da Ópera do Malandro para que eu tivesse uma vaga ideia de como tinha sido a murga que ele havia montado com os jovens infratores e que, ainda por cima, levou um prêmio em um festival de murgas, aqui no Uruguai.  Na hora, tive vontade de falar desse show do novo velho Chico que fui, da chatice que são as socialites histéricas e do final, quando saímos todos correndo a procurar os carros, antes que.

 No entanto, o que contei a Mário foi outra história, a de um lugar igualmente estranho e petrificante, onde de um lado, na margem esquerda de um rio, há uma biblioteca pública, mas as pessoas, do outro lado, da margem direita, moradoras de um bairro marginalizado, talvez não pudessem entrar.  Por que não é bem o rio que corta o acesso a esse prédio público. É esse ar de espanto quando fazemos e olhamos ao redor. Antes que. O muro está logo ali.

***
Chico Buarque e o rapper Criolo.
Ainda sobre o Chico, resolvi transcrever para que, depois quem sabe, em outro momento, eu possa falar sobre as intertextualidades de Cálice e a discussão política que Criolo fez ao atualizar/ homenagear a letra do Chico com um rap, também chamado Cálice. E tem também, a resposta do Chico juntando as duas versões.


Vídeo:




Criolo:
Como ir pro trabalho sem levar um tiro?/Voltar pra casa sem levar um tiro?/ Se às 3h da matina tem alguém que frita/ E é capaz de tudo pra manter sua brisa?// Os saraus tiveram que invadir os botecos/ Pois biblioteca não é lugar de poesia/ Biblioteca tinha que ter silêncio/E uma gente que se acha assim muito sabida// Há preconceito com o nordestino/ Há preconceito com o homem negro/ Há preconceito com o analfabeto/Mas não há preconceito se um dos três for rico.// A ditadura segue, meu amigo, Milton/ A repressão segue, meu amigo Chico/ Me chamam Criolo, o meu berço é o rap/ Mas não existe fronteira pra minha poesia.// Pai, afasta de mim  a biqueira/ Pai, afasta de mim as biate/ Pai, afasta de mim a cocaine/ Pois na quebrada escorre sangue.
Chico:
Gosto de ouvir o rap/ o rap da rapaziada// Um dia vi uma parada assim no youtube/E disse: ‘quius’pariu, parece o Cálice/ Aquela cantiga antiga minha e do Gil!/ Era se o camarada me dissesse:/ Bem vindo ao Clube, Chicão, bem vindo ao Clube/ Valeu, Criolo Doido/ Evoé, jovem artista!/ Palmas pro refrão do Doido, o rapper paulista:// “Pai, afasta de mim a biqueira/ Pai, afasta de mim as biate/ Pai, afasta de mim a cocaine/ Pois na quebrada escorre sangue”// Pai, afasta de mim esse cálice/ Pai, afasta de mim esse cálice/ Pai, afasta de mim esse cálice/ de vinho tinto de sangue.

Montevideo, 24 de setembro de 2014.

Um comentário:

  1. Hermoso, hermoso!!!!!!!!! No había pensado que de esa entrevista pudiera salir TAAAAAANTO en tu cabeza!!! Escribes muy hermoso, es un placer leerte. Gracias por la dedicatoria!!

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